A neutralidade da África na guerra Rússia-Ucrânia não impedirá que o continente sofra consequências econômicas do conflito.
— Esta não é a nossa guerra! —
Este é o grito primordial que sai da África, mesmo quando a invasão da Ucrânia pela Rússia ameaça ter amplos impactos geopolíticos e econômicos no continente.
“A economia mundial está sendo deslocada e, apesar de optar pelo cuidado, a África sentirá os efeitos em grande medida”, diz Macharia Munene, professor de História e Relações Internacionais da Universidade Internacional dos Estados Unidos, no Quênia.
Desde o início da invasão, as nações africanas optaram em grande parte por ser cautelosas em não perturbar Moscou, resistindo à pressão do Ocidente para se juntar à condenação. Durante uma votação na Assembleia Geral das Nações Unidas em 2 de março, 26 países africanos não apoiaram a resolução anti-Rússia de uma forma ou de outra. A Eritreia votou contra a resolução, 17 abstiveram-se e oito países africanos estiveram totalmente ausentes da votação.
Sergey Volkov, pesquisador sênior do Instituto de Estudos Africanos da Academia Russa de Ciências, considera essas posições uma indicação de que os países africanos valorizam sua postura independente. “Isso também mostra que eles têm o direito de escolher livremente os rumos e caminhos do desenvolvimento”, comenta.
A decisão da África de evitar escolher um lado reflete a crescente influência da Rússia no continente. Somente nos últimos sete anos, de acordo com o Afrexim bank, o comércio bilateral entre a Rússia e a África mais que dobrou, atingindo US$ 19 bilhões no ano passado. A balança comercial favorece a Rússia, cujas exportações para o continente ficaram em US$ 14 bilhões, contra US$ 5 bilhões de exportações de países africanos em troca.
Ao negociar com a África, a Rússia evitou a abordagem ocidental de vincular demandas políticas, como eleições, negócios e relações econômicas. Isso tornou Moscou querida por muitos líderes africanos, particularmente os mais autocráticos.
“Para ditadores e regimes não liberais, a Rússia é preferível ao Ocidente”, observa Leaza Jernberg, pesquisadora independente e consultora de diplomacia internacional baseada na África do Sul. Para a África, ela acredita, a influência da China também é significativa. “Existe a percepção de que a Rússia é aliada da China”, explica ela, “e muitos países africanos têm fortes ligações econômicas com a China”.
Mas mesmo enquanto a África tenta se distanciar de um conflito que acredita ser uma “guerra para as grandes potências”, como coloca o professor Munene, o impacto econômico da guerra – tanto positivo quanto negativo – no continente é inevitável.
Com a Rússia sendo cortada da economia global com sanções, a África deve se preparar para os efeitos em cascata. O aumento dos preços do petróleo bruto, por exemplo, pressagia um desastre para a maioria. Os preços subiram mais de 30% desde 24 de fevereiro, atingindo US$ 139 antes de recuar, e a volatilidade contínua é esperada. Custos mais altos de combustível e transporte para empresas e consumidores africanos aumentarão a inflação. A interrupção adicional das cadeias globais de fornecimento de manufatura – já um tanto disfuncional devido à pandemia – também pode afetar duramente as economias africanas.
Há também preocupações com a escassez de alimentos. Em 2020, a Rússia, o maior exportador de trigo do mundo, embarcou 37,3 milhões de toneladas de grãos, incluindo 8,2 milhões para o Egito, 1,3 milhão para o Sudão, 1 milhão para a Nigéria, 0,7 milhão para a Tanzânia e 0,6 milhão para o Quênia. “As sanções estão causando danos particulares aos países em desenvolvimento, principalmente africanos, muitos dos quais estão passando por sérias dificuldades econômicas”, observa Volkov. A Ucrânia também é um grande exportador de trigo, com 40% dos embarques anuais de milho e trigo do país destinados à África e ao Oriente Médio.
Por outro lado, a guerra pode aumentar a demanda por várias commodities africanas, especialmente metais, minerais e energia. Jernberg acredita que a África tem uma janela de oportunidade para lucrar com suas riquezas em matérias-primas, à medida que a Europa se afasta das importações de gás da Rússia. Moçambique e Tanzânia, por exemplo, descobriram enormes depósitos de gás natural liquefeito – embora capitalizar totalmente essas descobertas seja um projeto de longo prazo. «
— Ao abandonar o continente africano, o ocidente pode ter cometido um grande erro. —
Curiosidade:
A África abriga 65% das terras férteis não cultivadas do planeta, 10% dos recursos renováveis de água doce, e sua produção agrícola cresceu 160% nos últimos 30 anos. Esses dados são da Nova Associação para o Desenvolvimento da África (Nepad), o corpo técnico da União Africana (UA), e constam de um informe que recorda que a população mundial chegará a dez bilhões de pessoas até 2050.
Paulo Dung